Acordar neste sábado (25) com a notícia do grave acidente na Avenida Felipe Wandscheer trouxe um nó na garganta de toda a população iguaçuense. Duas jovens, de 17 e 18 anos, tiveram suas histórias interrompidas de forma trágica e precoce. Outros seis jovens ficaram feridos.
Neste momento, a única atitude cabível com relação às famílias que choram a perda de suas filhas é o respeito absoluto e o acolhimento. A dor de um pai e de uma mãe que veem o ciclo natural da vida se inverter é incomensurável. Não há julgamento de valor, não há busca por culpados na dor alheia. A perícia técnica fará o seu papel para esclarecer a dinâmica do fato.
No entanto, como comunidade, nos deparamos com uma pergunta desconfortável, mas urgente: quando será a hora de conversar abertamente sobre como evitar que tragédias assim continuem se repetindo?
Culpa não, prevenção: o diálogo que precisa acontecer em casa
Estamos perdendo jovens no trânsito de Foz do Iguaçu com uma frequência assustadora. Muitas vezes, pela imprudência ao volante; em outras, por estarem no lugar errado, vítimas de escolhas alheias.
As redes sociais têm empurrado os adolescentes cada vez mais cedo para a vida noturna. Um ambiente de independência aparente que, muitas vezes, atropela a maturidade.
Nas redes sociais, a noite é vendida apenas com filtros, luzes e glamour. A regra mais difundida nas redes sociais atualmente é “só quem se arrisca merece viver o extraordinário”, e geralmente, ela vem acompanhada de diversas provas sociais onde, correr o risco deu resultado positivo.
O feed não mostra o risco, a imprudência ou as consequências de uma escolha errada, e como essa geração já não consome os noticiários tradicionais, o “lado B” da vida real torna-se invisível para eles — até que seja tarde demais.
Parece que saiu de moda ver os pais esperando na saída da balada. Hoje, acompanhar a rotina dos filhos mais de perto é visto como ‘sufocamento’ ou distorcido como falta de confiança. Nós, pais, somos levados a sentir culpa por proteger — e é aí que muitos acabam cedendo.
Recentemente, ao ouvir de um amigo a frase “a gente cria os filhos para o mundo”, o questionamento que fica é simples: o mundo está preparado para proteger os nossos filhos? A resposta, dolorosa e cotidiana, é não.
Criar com zelo não é prender. É entender que a adolescência é, por natureza, uma fase de imaturidade neurológica e emocional. O jovem tende a subestimar riscos e a superestimar sua própria capacidade de controle. Por isso, a presença e o limite estabelecido pelos pais não são intromissão — são proteção.
Um carro não é um brinquedo, é uma responsabilidade gigantesca
Girar a chave de um veículo exige uma compreensão que vai muito além de saber acelerar e passar marchas. Um automóvel, quando conduzido sem a devida prudência, acima da velocidade permitida ou com a capacidade de lotação excedida, perde sua função de transporte e ganha o potencial de uma arma.
E a conversa entre pais e filhos precisa ser direta, clara e sem meias palavras:
- A responsabilidade de quem dirige: Conduzir um veículo significa responder pela própria vida, pela vida de cada passageiro que aceita carona e pela vida de estranhos que cruzam o mesmo caminho. Saber dizer “não” para um carro superlotado ou para um excesso de velocidade não é covardia, é maturidade.
- O limite de quem pega carona: Ensinar os filhos a avaliarem o estado de quem está ao volante. Se o condutor bebeu, se está eufórico, cansado ou demonstrando pilotagem arriscada, a orientação deve ser uma só: não embarque.
- O resgate sem julgamento: Os filhos precisam ter a certeza de que, independentemente da hora, do local ou do contexto, podem ligar para os pais pedindo carona sem o medo do sermão imediato. A prioridade absoluta é chegar em casa em segurança.
O zelo nunca sairá de moda
Proteger quem amamos pode gerar piadas entre amigos ou resistência por parte dos próprios adolescentes. O “excesso de cuidado” pode parecer exagero para quem olha de fora. Mas entre a inconveniência de uma viagem de madrugada para buscar um filho e a dor irreparável de uma tragédia, a escolha não exige pensamento.
Que o dia de hoje, marcado por uma tristeza profunda em Foz do Iguaçu, sirva para que outras famílias sentem à mesa e conversem. Sem apontar dedos para a tragédia que já aconteceu, mas garantindo que o cuidado, a presença e a responsabilidade continuem sendo a maior demonstração de amor que podemos oferecer aos nossos filhos.
Aos pais que estão se despedindo de suas filhas na tarde deste sábado, a minha mais sincera e dolorosa solidariedade: como pai, sei que jamais estaremos preparados para ver um filho partir antes de nós — que a memória delas seja abraçada com amor e que vocês encontrem forças para atravessar essa dor imensurável.