Chegamos àquela época do ano em que o iguaçuense com rinite ativa o modo sobrevivência e aceita que seu corpo é feito de 70% de água e 30% de Neosoro. O inverno se instala, a umidade relativa do ar despenca e, para os mais de 35% da população mundial que, segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), sofrem com alguma doença respiratória, começa o verdadeiro calvário em vida. É o festival do nariz coçando, olhos lacrimejando e o lenço de papel virando o item mais valioso da sua bolsa.
Mas se a secura do clima já é um castigo divino, a vida do trabalhador alérgico, que vive na fronteira e/ou divide mesa com alguém que tenha acesso às lojas em Ciudad Del Este, ganha contornos de filme de terror dentro dos ambientes corporativos. Com o frio, as janelas dos escritórios são lacradas como se fôssemos sobreviver a uma era glacial. O ar para de circular. É o cenário perfeito para o surgimento do maior vilão da modernidade: o uso sem limites da perfumaria árabe.
A “Meca” do contra-ataque olfativo logo ali no Paraguai

Não me leve a mal, andar cheiroso é maravilhoso. O problema é que moramos ao lado de Ciudad del Este, a atual “Meca” dos perfumes árabes. O mercado foi inundado por aqueles frascos imponentes, cheios de pedrarias, que parecem saídos da lâmpada do Aladim. Eles trazem uma concentração altíssima de óleos essenciais e especiarias pesadas. São fragrâncias projetadas para durar três dias no deserto do Saara, sob um sol de 50°C, mas que as pessoas resolvem passar para ir trabalhar em uma sala de três por quatro metros.
Aquele perfume ultra-adocicado com notas de baunilha, incenso e Oud que a sua colega de mesa passa às 8h da manhã não vai sair dali. Ele ganha vida própria, cria um CNPJ e passa a flutuar pelo escritório. Para quem tem vias aéreas sensíveis, uma única borrifada a mais daquela bomba árabe equivale a levar uma chinelada de especiarias direto no meio da cara. Você entra no elevador e, antes de chegar ao terceiro andar, seu nariz já entendeu que é hora de começar o show dos sete espirros seguidos.
Não é frescura, é química pura (e agressiva)

Se você acha que o seu colega de trabalho está de implicância com o seu bom gosto para fragrâncias exóticas, a ciência explica que o nariz dele está apenas tentando não morrer. Raramente o cheiro em si causa uma alergia real. O que acontece é uma irritação severa e física da mucosa nasal provocada pelos Compostos Orgânicos Voláteis (COVs) e fixadores que volatilizam no ar confinado.
O nariz do alérgico é agredido diretamente por substâncias bem comuns nesses vidros importados:
- Limoneno e Linalol: Presentes em notas cítricas, oxidam no ar e viram agentes irritantes;
- Geraniol e Citral: Base de fragrâncias florais que inflamam as vias aéreas na hora;
- Eugenol e Cinnamal: Extraídos de cravo e canela, dão o tom dos perfumes doces e amadeirados e atacam o sistema respiratório de pessoas sensíveis como se fossem gás de pimenta.
Pelo amor de Deus: usem com parcimônia

Em tempos de baixa umidade, o nariz do alérgico já opera no limite da exaustão, parecendo uma lixa no deserto. Dividir a mesa com alguém que tomou um banho de perfume forte gera crises imediatas de coriza e aquela coceira que dá vontade de tirar o nariz do rosto, lavar na pia e colocar de volta.
O apelo que fica para este inverno de 2026 é um pedido de socorro e de empatia corporativa: usem seus cobiçados perfumes árabes com moderação. Duas borrifadas já são suficientes para o Paraguai inteiro sentir. Deixem as notas ultra-açucaradas para os ambientes abertos, para a balada ou para quando as janelas puderem ficar abertas. O estoque de soro fisiológico e a saúde mental dos seus colegas agradecem.
Imagens: Freepik, Imagens criadas com uso de inteliugência artificial (I.A) e arquivos das redes sociais




