Uma história construída em encontros, conversas e redes voluntárias de aprendizagem de idiomas ganha, pela primeira vez, um registro coletivo em livro. A obra “História do Movimento Poliglota no Brasil e no Sul Global” será lançada no sábado, 19 de setembro, às 17h20, durante a 11ª Conferência Poliglotar de Idiomas e Cultura, no Hotel Foz do Iguaçu. Aberto ao público, o lançamento convida moradores, estudantes, professores, pesquisadores e interessados em cultura e idiomas a conhecer um movimento que aproxima pessoas para além das fronteiras linguísticas e geográficas.
Organizada pelo Instituto Yglota de Poliglotismo e Integração, a publicação reúne 55 coautores ligados a 32 clubes de idiomas de diferentes regiões do Brasil e também apresenta iniciativas da América Latina e de países africanos, como Quênia, Tanzânia e Moçambique. Mais do que compilar datas e instituições, o livro preserva a memória de um movimento social formado por pessoas que criam espaços democráticos e gratuitos para praticar línguas, compartilhar repertórios e promover convivência intercultural.
O registro alcança uma rede estimada pelo Instituto Yglota em milhares de participantes. Ao documentar experiências até então dispersas, a obra reconhece a aprendizagem de idiomas como prática cultural e comunitária: um caminho para a circulação de conhecimento, para a cooperação entre povos e para a ampliação das possibilidades de pacificação.
Foz do Iguaçu como território do encontro
A escolha de Foz do Iguaçu para o lançamento reforça a dimensão simbólica do projeto. O Movimento Poliglota começou em Foz do Iguaçu em 30 de maio de 2009, com a primeira reunião do Clube Poliglota Foz, ativo até hoje.
Na região trinacional, o português, espanhol, guarani e dezenas de outras línguas convivem no cotidiano de moradores, visitantes e comunidades migrantes. Segundo o 1º Relatório Yglota de Nacionalidades e Etnias da Região Trinacional do Iguaçu, publicado pelo instituto em 2024, a região concentra 95 nacionalidades e 29 etnias.

É nesse território multicultural que o livro será apresentado ao público, durante a primeira edição do Poliglotar sediada em Foz. O presidente e fundador do Instituto Yglota, organizador e coautor da publicação, Otto Mendonça destaca que em uma região trinacional, onde diferentes línguas, culturas e identidades se encontram todos os dias, lançar este livro é reafirmar que o poliglotismo tem um valor que vai muito além do domínio de idiomas.
“Ele nos ensina a escutar o outro, a compreender diferentes visões de mundo e a construir relações baseadas no respeito: fundamentos indispensáveis para uma cultura de paz. Ao unificar e registrar a história desse movimento, preservamos uma memória coletiva e mostramos que aprender línguas também pode ser uma forma concreta de aproximar povos e superar fronteiras”, afirma Mendonça.
O legado de Carlos Amaral Freire
A obra dedica um capítulo especial e inédito a Carlos Amaral Freire, hiperpoliglota gaúcho e patrono do movimento poliglota brasileiro. Reconhecido internacionalmente pela dedicação extraordinária ao estudo de línguas, Freire manteve por mais de seis décadas uma rotina sistemática de aprendizagem, com a proposta de estudar duas novas línguas por ano, e teve contato com dezenas de idiomas e culturas ao longo da vida. Ao recuperar sua trajetória, o livro não apresenta apenas uma referência individual do multilinguismo. Situa seu legado como inspiração para a formação dos clubes, para a curiosidade intelectual e para uma visão dos idiomas como portas de acesso a diferentes modos de pensar, narrar e compreender o mundo.
Poliglotar reúne idiomas, cultura e ampla programação

O lançamento encerra a programação do primeiro dia da 11ª Conferência Poliglotar de Idiomas e Cultura, que será realizada entre 19 e 20 de setembro. A organização preparou duas salas que recebem palestras, rodas de conversação e atividades em português, espanhol, inglês e francês, reunindo pesquisadores, professores, intérpretes e representantes de instituições e iniciativas culturais do Brasil e do exterior.
A programação começa conectada à identidade da região trinacional. Hugo Benjamín López aborda o alcance e a permanência da língua guarani na região do Iguaçu, enquanto Graciela Moreira-Pará Ychapy e Oscar Benítez apresentam aspectos da cultura, da cosmovisão e do modo de vida do povo Mbyá Guarani, com destaque para a comunidade Jasy Porã, de Puerto Iguazú, na Argentina. Isis Ribeiro Berger, professora da Universidade Estadual do Oeste do Paraná (Unioeste), compartilha vivências e projetos acadêmicos voltados à promoção do multilinguismo.
A dimensão internacional do encontro também aparece na participação de Ewa Waśniewska Carpes, profissional da Agência Espacial Europeia, em Paris, que discutirá o papel das línguas estrangeiras na diplomacia, na cooperação e no cotidiano das organizações internacionais. Guilherme Silveira, fundador do projeto Vida Poliglota, apresentará uma introdução ao finlandês e às línguas urálicas. Já Rafael Maury, formado em Letras e Literatura Japonesa pela Universidade de Brasília e fundador da escola Pensando o Japão, abordará as relações entre expressões idiomáticas, tradução e emoções no japonês e no português.
Educação, inclusão e novas tecnologias atravessam diferentes atividades. Ana Carolina Barros falará sobre neurodivergência e aprendizagem de idiomas; Sabrícia Andrade conduzirá uma reflexão prática sobre inteligência artificial para professores e estudantes; e Priscila Araujo apresentará a produção de videoguias bilíngues em Libras e português simples como instrumento de acesso à informação e ao Direito para a comunidade surda. William Messias Pereira Secco discutirá as possibilidades e os desafios do Português para Falantes de Outras Línguas.
A programação inclui ainda a apresentação de Nara Oliveira, coordenadora da Holoteca, e Luziânia Medeiros, coordenadora do Projeto Megacentro Cultural Holoteca, vinculado ao Centro de Altos Estudos da Conscienciologia (CEAEC), sobre um acervo formado por mais de um milhão de itens dedicados à preservação e à circulação do conhecimento. Alexandre Barbosa abordará o papel dos embaixadores do turismo na conexão entre pessoas, culturas e destinos. O Visit Iguassu Convention Bureau marcará, igualmente, presença no evento.
Também participam da conferência Francinaldo Lima da Costa, com uma abordagem sobre fonética e fonologia do inglês no ensino de adultos; Thiago Ribeiro, com uma apresentação sobre a língua e os sistemas de escrita do Egito Antigo; Eduardo Dobay, que relacionará música, linguagem e performance; e Maíra Machado, que compartilhará experiências da atuação profissional como intérprete de conferências. A agenda reserva ainda momentos de networking linguístico e salas de conversação, ampliando a experiência para além das exposições formais.
Para Juliano Timbó, fundador do Poliglotar, receber o lançamento do livro dentro da conferência traduz o propósito do próprio evento: reunir a comunidade que constrói e mantém o movimento poliglota. “O lançamento deste livro no Poliglotar não poderia fazer mais sentido. Aqui reunimos membros e representantes de clubes poliglotas de todo o Brasil, além de representantes internacionais, e essa obra reconhece e valoriza o trabalho coletivo que sustenta esse movimento no país.”
Serviço
Lançamento do livro “História do Movimento Poliglota no Brasil e no Sul Global”
Data: 19 de setembro de 2026, sábado
Horário: das 17h20 às 18h20
Evento: 11ª Conferência Poliglotar de Idiomas e Cultura
Local: Hotel Foz do Iguaçu
Endereço: Avenida Brasil, 97, Centro, Foz do Iguaçu (PR)
Programação completa e inscrições: www.poliglotar.com
Sobre o Instituto Yglota
Fundado e sediado em Foz do Iguaçu desde 2023, o Instituto Yglota de Poliglotismo e Integração é uma associação sem fins lucrativos dedicada à promoção do multilinguismo, à pesquisa sobre diversidade cultural e à realização de eventos e publicações voltados à integração internacional por meio dos idiomas. Já promoveu atividades no Brasil, na Argentina e em Moçambique. Entre suas publicações estão o “Relatório Yglota de Nacionalidades e Etnias da Região Trinacional do Iguaçu” e “¡Qué picha’o!”, apresentado pelo instituto como o primeiro dicionário bilíngue da região da tríplice fronteira, de autoria de um historiador de Puerto Iguazú que colabora com a instituição.

