Correntistas e clientes do ueno bank se depararam com as portas fechadas na manhã desta terça-feira (03). A instituição financeira — maior emissora de cartões de crédito do Paraguai, com mais de 3 milhões de clientes — teve seu processo de resolução e liquidação instaurado pelo Banco Central do Paraguai (BCP).
A crise deflagrou forte reação política e econômica no país: o presidente do BCP, Carlos Carvallo, formalizou sua renúncia ao cargo. A Justiça ordenou a prisão preventiva de oito diretores da entidade, incluindo o CEO Miguel Vázquez, enquanto manifestantes realizaram protestos no centro de Assunção exigindo o impeachment do presidente Santiago Peña.
Queda de solvência, prisão de executivos e renúncia no BCP
O procedimento de resolução foi instaurado pelo BCP após inspeções apontarem uma severa insuficiência patrimonial no ueno bank, cujo índice de solvência caiu para menos de 50% do mínimo exigido pela legislação bancária.
A intervenção foi decidida para proteger os depositantes e preservar a estabilidade do sistema financeiro nacional. Diante do colapso e do conflito de interesse — por ter presidido a financeira do mesmo grupo antes de assumir o comando do BCP em 2023 —, Carlos Carvallo encaminhou sua carta de renúncia ao Poder Executivo e ao Senado.
Paralelamente, o Ministério Público ordenou a prisão dos executivos sob investigação por irregularidades nos balanços e gestão temerária dos ativos da instituição.
Posição do Banco Central: “Decisão estritamente técnica”

A presidente interina do BCP, Liana Caballero, afirmou que o trabalho de fiscalização ocorreu de forma estritamente técnica, à margem de pressões políticas ou vazamentos na imprensa. Segundo a executiva, o encerramento das atividades decorreu da incapacidade do banco em aportar o capital necessário para cobrir suas perdas.
“Independentemente de vazamentos na mídia, o cenário seria o mesmo sem uma injeção de capital. O banco não caiu por causa do ruído; o ruído gerou flutuações e talvez tenha acelerado a retirada de depósitos, mas, sem o aporte e com as irregularidades descobertas, a entidade cairia de qualquer maneira”, declarou Caballero.
Ela reforçou que o órgão regulador atuou no cumprimento rigoroso da Lei nº 2.334/03 para reter os ativos do banco e evitar a propagação de riscos ao sistema bancário.
Plano de ressarcimento aos poupadores
Para conter o impacto financeiro sobre a população, o BCP anunciou a liberação emergencial de recursos do Fundo de Garantia de Depósitos (FGD):
- Primeiro pagamento: Liberado a partir desta sexta-feira, com limite de até 10 milhões de guaranis (cerca de R$ 9.200) por correntista.
- Teto da garantia legal: A cobertura total alcança até 75 salários mínimos (G. 228,3 milhões / cerca de R$ 210 mil) por pessoa física ou jurídica.
- Prazos e alcance: Saldos remanescentes dentro do limite legal serão quitados em até 15 dias. O BCP estima que 97% dos depositantes recuperarão a totalidade de seus valores.
No Congresso Nacional, a Câmara dos Deputados analisa um projeto de lei emergencial para prover liquidez adicional aos afetados.
Posição inicial da instituição

Horas antes da decretação formal da intervenção e do fechamento das sucursais, o ueno bank havia divulgado nota oficial negando o recebimento de notificações sobre a aplicação do Fundo de Garantia de Depósitos, sustentando que mantinha operações regulares para tentar conter a corrida bancária.
Foto em destaque: Divulgação/ANP





