O escândalo do ueno bank ganhou desdobramentos operacionais e judiciais gravíssimos no Paraguai entre a tarde de ontem, quarta-feira (04) e a manhã desta quinta-feira (05). Novas revelações do Ministério Público e do Banco Central do Paraguai (BCP) apontam que a instituição montou um sofisticado esquema de triangulação financeira para “comprar de si mesma” US$ 74,4 milhões em créditos podres e incobráveis, tentando ocultar o rombo patrimonial que levou ao seu fechamento. Mais uma similaridade inquestionável com o caso do Banco Master, considerado a maior fraude bancária da história do Brasil.

Paralelamente à investigação, a crise bancária migrou para os tribunais e para as ruas de Assunção. A Justiça formalizou a imputação contra 27 pessoas — incluindo oito diretores do banco —, enquanto protestos populares que exigem a devolução das economias e o impeachment do presidente Santiago Peña terminaram em confronto com as forças policiais.
O esquema do auto empréstimo: como funcionou a fraude de US$ 74 milhões

De acordo com a denúncia técnica apresentada pelo BCP e acolhida pela Fiscalía paraguaia, o ueno bank vinha sendo pressionado pela Superintendência de Bancos a zerar exposições irregulares de crédito concedidas a empresas ligadas aos seus próprios acionistas (como MOWI SA, Grupo Hendy SA e Grupo M SA).
Para não assumir o prejuízo no balanço, a diretoria simulou a venda da carteira podre para uma empresa parceira chamada Vinanzas SA em 15 de junho de 2026, pelo valor total de US$ 74.418.418.
No entanto, o rastreamento financeiro (trazabilidad) feito pelas autoridades revelou o “círculo perfeito” da fraude:
- A Vinanzas SA não possuía recursos próprios e recebeu aportes de uma rede de empresas de fachada (Satec SA, HD Invest EAS, Itti SAE, Kasas Propiedades SAE, Grupo Vázquez e Model SA).
- O rastreamento comprovou que todo o dinheiro injetado por essas empresas na Vinanzas SA havia saído, dias antes, de novos empréstimos liberados pelo próprio ueno bank.
- Na prática, o banco utilizou o dinheiro dos seus depositantes para pagar a si mesmo pela compra dos próprios créditos podres, maquiando a contabilidade da instituição.
Imputação e crimes atribuídos à diretoria
Os fiscais Jorge Arce, Silvio Corbeta, Yeimy Adle e Francisco Cabrera formalizaram a imputação contra 8 diretores do ueno bank e 19 executivos de empresas vinculadas ao esquema.
O Ministério Público atribuiu aos envolvidos a prática dos seguintes crimes:
- Conduta indevida em situações de crise;
- Lesão de confiança (estelionato/gestão fraudulenta);
- Tentativa de fraude;
- Violação da obrigação de manter livros comerciais.
Clima de tensão nas ruas: confronto com a polícia e alvos políticos

Enquanto a investigação avança, a indignação dos clientes com contas e poupanças congeladas tomou o centro histórico da capital paraguaia. Milhares de manifestantes reuniram-se na Plaza de la Democracia e marcharam até o Panteón Nacional de los Héroes vestindo camisas da seleção paraguaia e empunhando cartazes de protesto.
A insatisfação popular extrapolou a pauta financeira e mirou a cúpula do governo. Sob as palavras de ordem “Fora Peña” e “Cayó Ueno, ahora que caiga Santi”, os correntistas exigem a devolução imediata dos valores retidos e defendem a abertura de um processo de impeachment contra o presidente da República, Santiago Peña.

A tensão escalou entre a noite de quarta-feira e a madrugada desta quinta no entorno do Congresso Nacional. tropas de choque da Polícia Nacional do Paraguai utilizaram jatos d’água de carros hidrantes e bombas de efeito moral para dispersar manifestantes que tentavam romper o cerco de segurança das sedes dos poderes públicos. A ação gerou duras críticas da população após atingir idosos, crianças e pessoas com deficiência que participavam do ato.
Foto em destaque: Elisa Marecos Saldívar e Sandino Flecha Torres


