Na primeira metade dos anos 2010, existia no Portal ClickFoz uma coluna semanal que tinha o raro dom de provocar o leitor. Não era panfletária, não buscava aplauso fácil e, definitivamente, não tentava agradar a todos. Chamava-se “A Cidade que Nós Queremos”, assinada por Luiz Henrique Dias, professor, escritor e analista urbano.
Toda quinta-feira, Luiz entregava um olhar afiado sobre Foz do Iguaçu, o urbanismo e a mobilidade. Eu lia e, quase sempre, comentava. Discordava às vezes, concordava muitas outras, mas nunca passava ileso. E talvez essa fosse a maior virtude da coluna: ela dividia opiniões sem jamais mendigar unanimidade.
Confesso que, naquela época, eu queria colaborar com aquele espaço. Nunca consegui. Faltava-me o olhar apurado, sobrava-me o receio dos processos e, sejamos honestos, não dominava — receio que ainda não domino — a delicadeza necessária para discordar sem incendiar a cidade inteira.
Hoje, levado por uma sensação estranha — e por um saudosismo que insiste em não ir embora — resolvi tentar. Não para substituir coisa alguma, mas para dividir uma constatação. No melhor estilo de “A Cidade que Nós Queremos”. Dentro das limitações que a escrita me permite.
O saudosismo é pela coluna.
A sensação… bem, essa vem me acompanhando desde o início da temporada de férias. E tenho quase certeza de que não estou sozinho.
Vocês também estão se sentindo forasteiros dentro da própria cidade?
Viver em região de fronteira, especialmente durante a alta temporada de turismo, não é exatamente uma experiência suave para quem mora aqui. Para o visitante, é encantador. Para o morador… tenho minhas dúvidas.
Não é preciso muito esforço para perceber como Foz do Iguaçu se transforma nessa época do ano. O trânsito, talvez o termômetro mais cruel dessa metamorfose, deixa isso escancarado. Vivemos em uma cidade com algo em torno de 300 mil habitantes, vizinha de uma cidade paraguaia e outra argentina. Essa proximidade já nos impõe, durante todo o ano, um fluxo equivalente ao de uma cidade com pelo menos 700 mil pessoas.
Nas férias, esse trânsito ganha um temperinho extra. Um tempero forte, daqueles que ardem na língua.

Argentinos e paraguaios compartilham uma paixão: a viagem rodoviária. Resultado? Uma invasão sazonal de ônibus rodoviários — aqueles discretos veículos de 13, 14, às vezes 15 metros de comprimento, quatro metros de altura e dois andares. Os famosos double deckers.
Essa paixão, convenhamos, não conhece classes sociais. A diferença é que os menos abastados viajam de ônibus. Os mais abastados vêm em caminhonetes gigantes, com pneus A/T, motores a diesel e dimensões muito próximas… às de um ônibus.
Assim, durante o verão, cidadãos comuns, em veículos comuns, passam a disputar espaço urbano com ônibus enormes e caminhonetes que se comportam como ônibus disfarçados.
Quando esses ônibus precisam parar, ocupam boa parte das vagas regulamentadas. Como são mais largos do que a maioria delas, avançam sobre a via de rolamento, estrangulando ainda mais o tráfego na região central e nos bairros adjacentes.
As caminhonetes seguem outra lógica — ou a ausência completa dela. Ocupam uma vaga e, quase sempre, a vizinha. Paradas tortas, atravessadas, desalinhadas com qualquer noção de coletivo. Uma característica curiosa dos nossos hermanos: estacionar dentro das linhas parece sempre um desafio pessoal.
Ao morador local, resta o consolo de “conhecer melhor a cidade”. Que procure outra vaga. Longe. Muito longe.
A saga se repete em supermercados, centros comerciais e shoppings. Nos shoppings, inclusive, confesso sentir uma ponta de pena da empresa que administra os estacionamentos. Sim, eles cobram caro. Sim, não merecem compaixão. Mas quando vejo metade das vagas inutilizadas porque um único veículo resolveu ocupar duas, confesso: dó dá.
É nos shoppings, aliás, que a sensação de ser forasteiro atinge seu auge.
Estive, nesta semana, nos dois shoppings da cidade e em alguns dos principais atrativos turísticos. A impressão é clara: não estou no Brasil. Estou em algum país latino indefinido.
Ninguém fala português. Ou quase ninguém.
As vozes ao redor são espanholas. As conversas atrás, na frente, ao lado. Até o atendente — hablando o portunhol, claro, a língua oficial da Tríplice Fronteira.
Somadas centenas de sotaques, fica evidente para qualquer iguaçuense: fomos, gentilmente, “invadidos”. E, por ora, a língua dominante não é a nossa.
Mal posso esperar pelo especial de Natal da Globo com Julio Iglesias. Não… pera.
Se você chegou até aqui, parabéns. Já ultrapassei qualquer limite aceitável de caracteres para uma coluna. Culpa minha. Definitivamente não herdei o dom da síntese do Luiz Henrique Dias.
E antes que isso vire julgamento e o imprudente escritor aqui seja condenado à crucificação em praça pública, deixo algo muito claro:
Isso não é uma reclamação
Vivemos de turismo. Argentinos e paraguaios estão aqui fazendo turismo. Os números recordes anunciados no fim de 2025 por diversos atrativos devem muito a eles. Sem nossos vizinhos, talvez nem tivéssemos alcançado os índices de 2019.
Portanto, meu sincero agradecimento aos turistas de todos os cantos da Argentina e do Paraguai. Se forem me crucificar por este texto, por favor, escolham outro lugar. A Praça da Bíblia é quente demais.
O que faço aqui é apenas uma constatação
Talvez, pela primeira vez, o iguaçuense esteja sentindo na pele o que o argentino sentiu em 2002, após o colapso econômico, e também entre 2023 e início de 2024, quando a desvalorização brutal do peso transformou o Brasil em destino de compras em massa.
Sim, criamos o termo “invasão brasileira”.
Agora, estamos escrevendo essa mesma expressão no nosso próprio dicionário.
E quanto ao Paraguai… sejamos honestos. Brasileiros nunca precisaram de vantagem econômica para “invadir” Ciudad del Este. Fazemos isso com dólar alto, dólar baixo ou dólar inventado.
Uma cidade turística não pode reclamar do turismo. Essa é a engrenagem que move nossa economia. Mesmo quem acredita não ser beneficiado, é. Ainda que indiretamente. Sempre é.
O problema, então, não é o turista.
É a falta de planejamento.
Se não podemos reclamar, resta cobrar. Dos nossos vereadores, tão respeitáveis, mas muito silenciosos nesta época do ano. E do Executivo municipal.
É preciso agir para que o aumento sazonal da frota não continue nos atropelando todo verão.
Há exemplos. Balneário Camboriú é um deles.
Lá, o turismo também é massivo. E, justamente por isso, foram criadas regras claras para ônibus de turismo. Há taxa obrigatória, cadastro prévio, controle de circulação, horários definidos e pontos específicos de embarque e desembarque.
Ônibus até podem circular. Mas não estacionar onde bem entendem.
Para isso, existem estacionamentos públicos estruturados, com segurança 24 horas, áreas de descanso para motoristas, descarte adequado de resíduos biológicos e logística pensada para funcionar.
Foz do Iguaçu poderia — e deveria — avançar em medidas semelhantes:
- Criação de taxa municipal de circulação para ônibus de turismo que não são emplacados na cidade, com cadastro obrigatório;
- Definição clara de rotas exclusivas para ônibus em alta temporada;
- Implantação de bolsões de estacionamento fora do eixo urbano, com transporte complementar para os turistas;
- Regulamentação rigorosa de pontos de embarque e desembarque, com fiscalização efetiva;
- Revisão das regras de estacionamento na área central durante períodos críticos;
- Integração real entre turismo, mobilidade urbana e planejamento viário — não apenas no discurso.
Nada disso afasta turistas. Pelo contrário. Organiza, qualifica e torna a experiência melhor para todos.
Turismo não combina com improviso. Muito menos com caos.
O “timing” para essa temporada, já perdemos. Mas se queremos continuar vivendo em uma cidade turística — e queremos — precisamos decidir se seremos protagonistas do planejamento ou apenas figurantes reclamando no congestionamento.
Porque se sentir forasteiro dentro da própria cidade, convenhamos, cansa.
*Assim como na extinta coluna escrita por Luiz Henrique Dias, a opinião emitida neste texto não representa necessariamente o posicionamento deste veículo de comunicação.
Fotos: Imagens geradas por Inteligência Artificial (I.A)
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