A decisão da Receita Federal do Brasil (RFB) de proibir a circulação de ônibus de fretamento turístico pela Ponte Internacional da Amizade, a partir de 19 de janeiro de 2026, ameaça provocar um efeito colateral grave: atingir diretamente o turismo organizado de Foz do Iguaçu, um dos principais pilares da economia local.
A medida integra um acordo bilateral entre Brasil e Paraguai e faz parte da segunda fase da abertura progressiva para o trânsito na fronteira. No entanto, ao tratar todos os ônibus turísticos da mesma forma, a resolução ignora a dinâmica real do setor na cidade.
Veja a informação da Receita Federal na íntegra
“A Receita Federal informa que, em decorrência das tratativas entre os Governos do Brasil e do Paraguai, conduzidas pelas instituições diplomáticas de ambos os países, no âmbito da Comissão Mista Brasil–Paraguai para a construção da segunda ponte rodoviária internacional sobre o rio Paraná, entre Foz do Iguaçu e Presidente Franco, foi firmado acordo bilateral com novas regras sobre o tráfego de veículos na região.
Conforme o acordo, a segunda fase da abertura progressiva para o trânsito ocorrerá a partir de 19 de janeiro de 2026, ficando vedado, a partir de então, o tráfego de ônibus em fretamento eventual ou turístico pela Ponte Internacional da Amizade. Esse tipo de transporte deverá ocorrer exclusivamente pela Ponte da Integração, no período compreendido entre 19h00 e 07h00.
A Receita Federal orienta os transportadores e os demais interessados a cumprirem rigorosamente as novas disposições, garantindo a fluidez do tráfego e o adequado controle aduaneiro e migratório na região de fronteira.”
Uma medida pensada para os sacoleiros
Na prática, a resolução aparenta ter sido desenhada para conter o fluxo excessivo de ônibus de compras populares, os chamados ônibus de sacoleiros.
Em dezembro, especialmente na semana do Natal, cerca de 3 mil ônibus cruzaram diariamente a Ponte da Amizade em direção ao Paraguai, sobrecarregando a infraestrutura e os controles aduaneiros.
O problema não é o diagnóstico.
O problema é o remédio.
Receita confirma: turismo regular também está incluído
Questionada oficialmente sobre os ônibus de agências de turismo que operam em Foz do Iguaçu, a Assessoria de Comunicação da Receita Federal foi direta:
“A regra inclui todos os ônibus de turismo nas modalidades de fretamento, de qualquer cidade ou país, inclusive Foz do Iguaçu.”
Ou seja, não existe distinção entre excursões predatórias e agências legalizadas, que operam com roteiros organizados, passageiros identificados, motoristas profissionais e impacto econômico positivo para a cidade.
Tudo vai para o mesmo saco.
Uma decisão técnica… sem técnica
A resolução escancara uma atuação descoordenada e distante da realidade local, envolvendo a Comissão Mista Brasil–Paraguai e órgãos que deveriam agir de forma integrada, como Receita Federal, PRF e Polícia Federal.
Trata-se de uma solução administrativa decidida longe da fronteira, sem diálogo com o trade turístico, sem escuta das agências locais e, aparentemente, sem compreensão do funcionamento cotidiano do turismo em Foz do Iguaçu.
Na prática, a medida significa:
- Redução drástica dos passeios de compras organizados
- Impacto direto sobre hotéis, guias, motoristas, agências e restaurantes
- Gargalos artificiais na Ponte da Integração, restrita ao período noturno
- Desestímulo ao turismo regional e nacional
Tudo isso em plena alta temporada.
Turismo não é problema. É solução
O turismo em Foz do Iguaçu não é um efeito colateral do contrabando.
É uma das poucas atividades da fronteira totalmente formalizadas, rastreáveis e geradoras de emprego, renda e arrecadação.
Tratar ônibus turísticos como problema fiscal é confundir remédio com veneno.
Mais do que isso: é comprometer a imagem do destino e penalizar quem trabalha dentro da lei.
COMTUR reage e cobra diálogo
A informação da Receita foi divulgada no fim da tarde de domingo (12). Até então, não houve manifestação pública das lideranças políticas da cidade.
No entanto, na manhã desta segunda-feira, o Conselho Municipal de Turismo (COMTUR) se pronunciou oficialmente, manifestando indignação com a condução do processo.
Em nota, o conselho afirma que decisões estratégicas sobre as pontes internacionais vêm sendo tomadas sem diálogo com quem vive, opera e sustenta o turismo na fronteira, desconsiderando a realidade do território e o impacto direto sobre toda a cadeia produtiva.
O COMTUR ressalta que o turismo é uma atividade econômica estruturante, geradora de emprego, renda, visibilidade internacional e integração entre países, e não um detalhe operacional.
O conselho também defende a necessidade de diálogo integrado entre turismo, transporte e logística, reforçando que ignorar os agentes locais fragiliza a governança, cria insegurança operacional e compromete a imagem de Foz do Iguaçu no mercado nacional e internacional.
E as lideranças políticas, onde estão?
Apesar da gravidade do tema, não houve até o momento posicionamento público firme nem articulação visível por parte dos representantes políticos da cidade.
O resultado é previsível: uma cidade inteira refém de decisões tomadas longe da fronteira, por quem não vive o fluxo, não sente o impacto e não responde às consequências.
Sem diálogo, o caos é a regra
Se a medida for mantida nos termos atuais, Foz do Iguaçu corre o risco de transformar o turismo — seu maior ativo econômico — em vítima de burocracia cega e gestão desconectada da realidade local.
Regular é necessário.
Organizar, também.
Mas governar sem ouvir quem sustenta a economia da cidade é a receita perfeita… para o caos.



