A geopolítica na América do Sul e a convivência entre países vizinhos vivem um momento de evidente sensibilidade. Na última sexta-feira (24), uma declaração do presidente Luiz Inácio Lula da Silva reacendeu feridas históricas do século XIX e provocou uma dura reação do Poder Legislativo do Paraguai nesta segunda-feira (27).
Ao discursar na fábrica da Avibras, em Jacareí (SP), para defender o aumento de gastos na defesa e o fortalecimento das Forças Armadas brasileiras, Lula usou a Guerra da Tríplice Aliança como justificativa orçamentária. “Nós gostamos de paz. Mas um belo dia o Paraguai resolveu invadir o Brasil. A Guerra do Paraguai custou três orçamentos do Brasil na época. Quando você entra em guerra, não fica perguntando se tem dinheiro ou não”, declarou o presidente.
Repúdio do Congresso Paraguaio

A resposta de Assunção veio de forma rápida e oficial. O presidente do Congresso Nacional do Paraguai, Basilio “Bachi” Núñez, divulgou um comunicado cobrando “respeito e sensibilidade” do mandatário brasileiro ao tratar da memória histórica de seu país.
“Não se trata de um enojo circunstancial nem de uma diferença política do presente, mas de uma memória que atravessa gerações e forma parte essencial da identidade de nossa Nação”, rebateu Núñez. Para o parlamento paraguaio, a simplificação do conflito que devastou o país — dizimando cerca de 70% da sua população masculina — fere a soberania e a sensibilidade nacional.
O tabuleiro geopolítico atual: EUA, China e sobretaxas
O atrito verbal não acontece em um vácuo. A região enfrenta um redesenho de alianças estratégicas.
De um lado, o governo paraguaio vem se aproximando ostensivamente dos Estados Unidos, inclusive aceitando negociações para a instalação de bases e cooperação militar norte-americana em seu território. Do outro, o Brasil busca ampliar sua parceria econômica com a China para diversificar mercados e reduzir a dependência de Washington.
A equação ficou ainda mais complexa com a postura do governo de Donald Trump nos Estados Unidos, que impôs sobretaxas às importações de produtos brasileiros e fez declarações públicas sobre as eleições presidenciais no Brasil, pressionando a diplomacia em Brasília.
A história sob dois ângulos e o risco de ser peças de um jogo alheio
Historicamente, a análise do conflito de 1864 envolve complexidades que vão além de apontar apenas um agressor. Antes da invasão militar ordenada por Solano López ao Mato Grosso e ao Rio Grande do Sul, o Império do Brasil havia intervindo militarmente no Uruguai para depor o governo do Partido Blanco, aliado de Assunção, e bloqueado rotas de acesso do Paraguai ao oceano.
A reação desesperada de López desencadeou o maior conflito armado da América do Sul. Contudo, o prosseguimento da guerra promovido por Dom Pedro II, mesmo após o Paraguai estar totalmente derrotado, resultou em massacres que até hoje marcam a memória do povo vizinho.
Em um momento em que a cooperação econômica e o turismo na fronteira entre Foz do Iguaçu e Ciudad del Este demandam pontes, a retórica política reacende rusgas que o tempo e a diplomacia vinham tentando cicatrizar.
Mais de 160 anos depois, o cenário se desenha com contornos parecidos aos do século XIX: enquanto Washington e Pequim disputam hegemonia global, Brasil e Paraguai correm o risco de servir como mero tabuleiro de xadrez para interesses alheios. Para que a integração regional avance de fato, ambas as nações precisam da maturidade de aprender com as tragédias do passado. A verdadeira soberania sul-americana não se constrói trocando farpas por conta de pressões externas, mas sim fortalecendo a confiança e a parceria entre povos irmãos.


