O Governo do Paraná enviou na quarta-feira (29) uma correspondência à redação da revista Veja, de circulação nacional, respondendo um artigo do ex-ministro da Fazenda, Maílson da Nóbrega, sobre a "interpretação" feita pelo mesmo da Lei 16.177, que regulamenta o uso de palavras estrangeiras em propagandas. Segundo o governo do Paraná, a lei sancionada recentemente não proíbe o uso de termos em outras línguas, mas exige que eles sejam acompanhados da tradução, para serem compreendidos pelos brasileiros que não falam outros idiomas.
Carta na íntegra:
Ao diretor de Redação da revista Veja,
Em resposta ao artigo “Ludopédio no gramado”, do ex-ministro da hiperinflação, Maílson da Nóbrega, o Governo do Paraná esclarece que:
– A Lei Estadual 16.177 trata, apenas e tão somente, do uso de palavras estrangeiras em propagandas. Não se refere a quaisquer outros usos da língua, como títulos de filmes, discos, livros ou clubes de futebol, como parece acreditar o ex-ministro. Também não proíbe o uso de quaisquer expressões estrangeiras. Antes, apenas pede que elas sejam traduzidas, em favor das dezenas de milhões de brasileiros que não falam — e nem precisam — inglês, francês, alemão, italiano ou outros idiomas.
– O governador Roberto Requião, graduado em Direito pela Universidade Federal do Paraná (UFPR) e em Jornalismo pela antiga Universidade Católica do Paraná, hoje PUC-PR, tem pleno conhecimento de que um idioma como o português brasileiro é algo vivo, de propriedade de centenas de milhões de falantes e, por isso mesmo, em constante mutação, sujeito à influência de palavras e expressões de outras línguas.
– Não é para impedir tal influência que se editou a Lei 16.177. O que querem o governador e os deputados estaduais do Paraná que votaram a favor dela é coibir o ridículo, abusivo e, não raro, inculto e ignorante uso do inglês e de outros idiomas estrangeiros no afã de “sofisticar” mensagens publicitárias. Atribuir à Lei 16.177 efeitos tão perversos como os que cita o ex-ministro é o mesmo que culpar, exclusivamente, Maílson da Nóbrega pela inflação de 80% ao mês durante sua gestão à frente do Ministério da Fazenda.
– Requião quer, apenas, resgatar o bom senso e evitar o ridículo de ver cidades brasileiras coalhadas de propagandas em inglês, apregoando sale, off, delivery, rent, drive thru, personal stylist, personal trainer etc. Fariam melhor a Veja e outros veículos brasileiros se saíssem às ruas e perguntassem aos cidadãos se entendem o que dizem tais palavras.
– Vejamos alguns exemplos do uso abusivo — e, pior, incorreto — de idiomas estrangeiros no Paraná. Um dos shopping centers de Curitiba chama cada um dos vários andares de seu estacionamento de “Deck Park”. Está errado. Em inglês correto, se escreveria Parking Deck.
– Outro caso: um dos hotéis de luxo da cidade, em propaganda de rádio veiculada há algum tempo, convidava executivos para seu café da manhã pomposamente batizado de “Morning Coffee”. Novo erro. Café da manhã, em inglês, é Breakfast. Pior ainda — o locutor, provavelmente não versado em inglês, pronunciava coffee sem acentuar a última sílaba. Ouvia-se, assim, cough, tosse, em inglês. Um cidadão britânico ou norte-americano de passagem por Curitiba ouviria, portanto, um convite para uma sessão de “tosse de negócios”, o que quer que seja isso. Há inúmeros outros exemplos, mas não vemos a razão de nos estendermos, aqui.
– Chamamos a atenção, por fim, para a sanha com que os que agora falam em “atentado à liberdade de expressão” se voltam contra o uso do português do presidente Luís Inácio Lula da Silva. Homem de formação simples, Lula traz em seu falar inúmeras marcas do português da Garanhuns de sua infância e do chão de fábrica e das reuniões sindicais do ABC paulista. Nada de errado com isso, concordam os linguistas. O idioma, afinal, é algo vivo, está em constante mutação. Não nesse caso. A liberdade de expressão vale para publicitários, que se autodenominam “criativos”, se apropriando de um adjetivo que travestem de substantivo para se autoglorificarem. Mas nunca, jamais, para a gente simples. Que democracia é essa, ex-ministro?
Atenciosamente
Governo do Paraná


