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“Vale Tudo” e o retorno dos grandes vilões da TV

No remake de Vale Tudo, os vilões retomam o protagonismo que a teledramaturgia brasileira parecia ter esquecido. Sem justificativas ou humanizações forçadas, a novela resgata a essência do mau-caratismo e da corrupção como força motriz da trama.
Bella Campos como Maria de Fátima na novela “Vale Tudo”. (Foto: Reprodução/TV Globo).

A televisão brasileira revive um de seus maiores sucessos. Na noite de ontem, 31 de março, a Globo estreou o remake de Vale Tudo, novela que marcou a história da teledramaturgia em sua exibição original, em 1988. Trinta e seis anos depois, a pergunta que norteia a trama segue atual: “Até onde vai a honestidade em um país onde ser esperto muitas vezes vale mais do que ser correto?”

A versão original de Vale Tudo, criada por Gilberto Braga, Aguinaldo Silva e Leonor Bassères, tornou-se um fenômeno ao escancarar um Brasil corroído pela corrupção, pela desigualdade e pela inversão de valores. O público vibrava, se revoltava e torcia pela protagonista Raquel Accioli, a mulher simples e batalhadora que via sua própria filha, Maria de Fátima, vender-se ao dinheiro e ao poder sem remorso. A icônica vilã Odete Roitman, interpretada por Beatriz Segall, sintetizava a elite fria e implacável que se aproveitava das regras frouxas de um país em crise moral.

Agora, em 2024, a Globo resgata essa história sob um novo olhar. O que mudou no Brasil de lá para cá? Os valores se inverteram ainda mais ou continuamos fazendo as mesmas perguntas?

A morte que choca os mais jovens

Se os espectadores da versão original já sabiam o que estava por vir, os mais jovens foram pegos de surpresa no primeiro capítulo: a morte de Salvador, o único personagem realmente honesto da trama.

Salvador (Antônio Pitanga) em Vale Tudo. Foto: Fábio Rocha/Divulgação TV Globo.
Salvador (Antônio Pitanga) em Vale Tudo. Foto: Fábio Rocha/Divulgação TV Globo.

Interpretado originalmente por Sebastião Vasconcelos e agora vivido por Antonio Pitanga, Salvador é pai de Raquel e avô de Maria de Fátima. Um homem de caráter inquestionável, que honra cada dia de trabalho na alfândega da Receita Federal, em Foz do Iguaçu, na fronteira com o Paraguai. Sua retidão, porém, não o salvou. Ele precisava morrer — como aconteceu na versão de 1988 — pois sua ausência é o que abre caminho para a jornada de ambição e falta de escrúpulos de Maria de Fátima.

Os mais jovens precisam entender: Vale Tudo não é uma novela sobre bondade. É sobre mau-caratismo. Nesta história, os vilões não apenas têm protagonismo — eles são a novela.

Vida longa aos vilões!

A TV brasileira passou décadas tentando humanizar seus vilões. Nos últimos anos, eles se tornaram “politicamente corretos”, sempre ganhando justificativas emocionais e discursos que buscavam a empatia do público. Em Vale Tudo, não há espaço para isso. Os vilões são desonestos, são imorais, são cínicos — e brilham por isso.

A nova versão da novela chega com o desafio de manter essa essência, sem medo de incomodar. Em um país onde a corrupção e os escândalos continuam ocupando as manchetes, a pergunta ainda ressoa: Vale tudo para vencer?

O que sabemos é que o público está pronto para embarcar novamente nesse enredo de ambição, caráter e dilemas morais. E, para o bem da teledramaturgia, a TV brasileira finalmente tem vilões à altura novamente.


Sobre o autor:

Kaká Souza é escritor, roteirista, noveleiro e colunista no Portal Clickfoz. Apaixonado por teledramaturgia, analisa com olhar crítico e envolvente as histórias que marcaram gerações.