Nesta semana, a redação do Portal Clickfoz foi procurada pela assessoria de imprensa da Riachuelo (Grupo Guararapes). O motivo: um pedido de correção em nossas matérias sobre investimentos brasileiros no Paraguai. Segundo a nota extra-oficial enviada, a Riachuelo — e sua controladora, a Guararapes — não possuem e nunca possuíram operações fabris no Paraguai, mantendo apenas “negócios pontuais” com a empresa paraguaia Texcin.
Atendemos prontamente ao pedido de errata, prezando pelo espaço da empresa. No entanto, o “apagão” logístico sugerido pela assessoria esbarra em um arquivo histórico robusto, fartamente documentado pela imprensa nacional e pelo próprio Governo do Paraguai.
O “Made in Paraguai” que virou manchete
Em 10 de outubro de 2015, o jornal O Globo (republicado pelo portal do Senado Federal) estampava: “Made in Paraguai: Empresas brasileiras aproveitam benefício fiscal e custo menor do trabalho para abrir fábricas no país”.
Na foto principal da reportagem, um registro difícil de ignorar: o então presidente do Paraguai, Horácio Cartes, aparece ao lado de Flávio Rocha, então presidente do Grupo Guararapes (e atual Presidente do Conselho de Administração). A legenda era clara: “Parceria. O presidente do Paraguai e Flávio Rocha inauguram nova fábrica”.

Naquela ocasião, o próprio Flávio Rocha foi enfático ao descrever a operação ao jornal:
“Mandamos para lá parte do maquinário da fábrica de Fortaleza. Enviamos tecidos e moldes. Nosso parceiro costura as roupas e fornece para nossas lojas no Brasil. O Paraguai tem o custo chinês, com o transit time de Santa Catarina”, afirmou Rocha em 2015.

US$ 5 milhões e o “Custo Chinês” na fronteira
A ligação entre o grupo brasileiro e a Texcin não nasceu de um contrato casual. A planta começou a operar em agosto de 2015 com um investimento divulgado de US$ 5 milhões vinculado ao grupo brasileiro, 150 trabalhadores iniciais e uma meta de produção de 65 mil peças por mês.
Na época, o cenário era de “febre” pelas maquiladoras. O Paraguai oferecia (e ainda oferece) energia 65% mais barata, imposto de apenas 1% na exportação e custo de mão de obra 50% menor que o brasileiro. Era a estratégia perfeita para enfrentar a concorrência asiática.
Mudança de estratégia ou de discurso?

Atualmente, o Grupo Guararapes é liderado pelo CEO André Farber, que foca na digitalização e novas estratégias de mercado, incluindo a recente mudança na nomenclatura de pregão e ticker na B3, deixando Guararapes Confecções (GUAR3) e passando a se chamar Riachuelo sob o código RIAA3. Contudo, a tentativa de classificar a relação com a Texcin como meramente “pontual” soa contraditória para quem, há menos de uma década, inaugurava a planta com pompa oficial e transferia maquinário pesado do Ceará para solo paraguaio.
A Riachuelo pode não ter o título de propriedade do imóvel onde funciona a Texcin, mas o investimento, a transferência de tecnologia e a dependência logística narrada pelo seu principal porta-voz em 2015 desenham um cenário muito mais profundo do que uma simples compra de estoque.
A pergunta que fica é: Por que, em 2026, a gigante do varejo faz questão de se distanciar de uma operação que já foi motivo de orgulho e exemplo de eficiência logística para o mercado brasileiro? Se a Riachuelo não possui a planta, ela certamente investiu como se tivesse — e colheu os lucros dessa estratégia por anos.
Foto em destaque: Reprodução/Agência O Globo


