A divulgação da 7ª edição do relatório Pele Alvo – entre Racismo e Letalidade, o Amanhã, produzido pela Rede de Observatórios do Centro de Estudos de Segurança e Cidadania (CESeC), trouxe novamente à tona um dado alarmante: em 2025, 86,3% das 4.330 pessoas mortas em ações policiais nos nove estados monitorados eram negras. O estudo conclui, de forma direta, que o racismo é o componente essencial para explicar essa letalidade.
Apresentar a polícia como uma instituição que possui uma “preferência” por alvos negros é o caminho mais simples para a opinião pública. No entanto, essa análise de superfície ignora a engrenagem socioeconômica profunda que atua muito antes do primeiro disparo. O verdadeiro cerne do problema nacional não está na cor da pele impressa no RG, mas sim no saldo da conta bancária e na ausência estrutural do Estado nas periferias.
A vulnerabilidade social como principal vetor de aliciamento
Dizer que a segurança pública falha na contenção da violência extrema é chover no molhado. Contudo, culpar exclusivamente o aparato policial pelo perfil das vítimas blinda o Estado de sua maior responsabilidade: a incapacidade de oferecer oportunidades iguais desde a primeira infância.
As facções criminosas, como o Primeiro Comando da Capital (PCC) e o Comando Vermelho (CV) — que o próprio relatório aponta em franca expansão pelo Norte e Nordeste —, não realizam seus recrutamentos baseados em critérios raciais. O crime organizado busca preencher vazios. Ele se alimenta de estômagos vazios, de armários sem mantimentos e, principalmente, da total falta de perspectiva de melhora futura.
Nas grandes capitais brasileiras, a esmagadora maioria da população de baixa renda é negra devido a fatores históricos e fluxos migratórios seculares. Logo, o alistamento de jovens pelo tráfico nessas regiões refletirá essa demografia. Porém, quando se analisa a dinâmica da criminalidade em cidades do interior ou em regiões com composições étnicas distintas, como Foz do Iguaçu, percebe-se que o crime coopta brancos, negros, indígenas e asiáticos com a mesma velocidade. O fator comum entre eles nunca foi a raça, sempre foi a pobreza.
A falácia do debate focado apenas no confronto

O relatório do CESeC critica duramente o uso de termos como “narcoterroristas” e a normalização do confronto. Por outro lado, secretarias de segurança, como as de Pernambuco e do Rio de Janeiro, defendem que as ações são técnicas e motivadas pela resistência armada de grupos criminosos.
Quem vive aqui na fronteira, e acompanha — mesmo que minimamente — o bloco das notícias policiais nos jornais, portais de notícia e até mesmo na rádio, sabe que o crime organizado vem investindo em armamento cada vez mais letal. Então, como podemos esperar que as secretarias de segurança pública dos estados façam o caminho contrário? Será que dá pra combater armamento de guerra com tasers de choque?
O debate público fica estagnado nessa polarização entre a acusação de racismo institucional e a justificativa do estrito cumprimento do dever legal. Enquanto a discussão se mantiver restrita ao momento do confronto, a raiz do problema continuará intacta. O jovem periférico que morre na favela hoje foi abandonado pelo poder público quinze anos atrás, quando faltou creche, escola em tempo integral, saneamento básico e inclusão digital.
Sem uma política macroeconômica e social que garanta que o cidadão de baixa renda tenha acesso às mesmas ferramentas de ascensão de quem nasceu em berço de ouro, as periferias continuarão sendo um celeiro de mão de obra barata para o tráfico. E, consequentemente, seus moradores continuarão na linha de frente do combate à criminalidade.
É preciso mudar a pergunta

A pergunta correta a ser feita aos governantes não é apenas por que a polícia mata mais negros, mas sim por que o Estado permite que as crianças e jovens negros e pobres continuem sendo os principais alvos de cooptação das facções.
Tratar a letalidade na periferia apenas sob a ótica racial é dar uma resposta conveniente para um problema inconveniente. O Brasil precisa encarar a desigualdade pelo que ela é: uma barreira econômica que segrega os indivíduos pelo CEP e pela renda. Enquanto a conta bancária determinar o nível de cidadania de um indivíduo, a segurança pública continuará sendo uma ferramenta de contenção de danos de um sistema que falhou na base.
Nota do autor: Este é um texto opinativo, e você tem todo o direito de discordar de cada linha. Mas antes que você julgue essas palavras achando que um privilegiado em berço de ouro está por trás delas, permita-me apresentar: eu sou o Kaká Souza. Homem preto, nascido e criado na periferia, que há 48 anos insiste em contrariar as estatísticas de sobrevivência deste país. Não defendo o abuso, mas aprendi que a realidade das nossas quebradas é complexa demais para caber em teses fáceis.
Foto em destaque: Produzida com auxílio de inteligência artificial (I.A)
