A Argentina vive nesta terça-feira, 24 de março de 2026, uma jornada de profunda reflexão. Há exatamente meio século, as Forças Armadas lideradas por Jorge Rafael Videla destituíam a presidente Isabel Perón, dando início ao período mais sangrento da história do país. Designada oficialmente como o Dia da Lembrança da Verdade e da Justiça, a data mobiliza milhões de argentinos sob o lema “Nunca Mais”.
A ditadura militar (1976-1983) foi marcada pela “Guerra Suja”, uma campanha de terrorismo de Estado que resultou no desaparecimento de cerca de 30 mil pessoas. Opositores, estudantes e operários foram levados a centros clandestinos, torturados e assassinados. Um dos crimes mais cruéis do regime foi o roubo de pelo menos 500 bebês de prisioneiras, entregues a famílias de militares — muitos dos quais ainda buscam sua verdadeira identidade.
Negacionismo e Tensão Política

O cinquentenário do golpe ocorre em um momento de embate narrativo. O governo de Javier Milei tem causado indignação ao questionar publicamente o número de vítimas e ao equiparar o terror estatal à violência de guerrilhas anteriores ao golpe. Recentemente, cortes em gastos públicos destinados a grupos de memória e direitos humanos acirraram os ânimos entre o governo e organizações como as Mães e Avós da Praça de Maio.
Apesar das tentativas de revisão histórica, documentos desclassificados reforçam a tragédia. Um informe de 1978, interceptado pela inteligência americana, já apontava que o próprio regime contabilizava 22 mil mortos e desaparecidos cinco anos antes do fim da ditadura.
O Eternauta: O Criador que se tornou Vítima

O resgate dessa memória também passa pela cultura. A série argentina “O Eternauta”, lançada pela Netflix em abril de 2025, que se tornou sucesso no mundo todo trazendo para as telas aquela que é considerada a “obra-prima das HQs latino-americanas”. No entanto, mais do que a trama de ficção científica estrelada por Ricardo Darín, o que ressoa neste 24 de março é a trágica história de seus criadores durante os anos de chumbo.
Héctor Germán Oesterheld, o roteirista da obra, não foi apenas um observador da opressão; ele se tornou uma de suas vítimas mais emblemáticas. Ativista político, Oesterheld foi sequestrado em 1977 e desapareceu sem deixar rastros. O terror estatal dizimou sua família: suas quatro filhas — todas militantes — foram assassinadas pelo regime, assim como três de seus genros.
Enquanto o ilustrador Francisco Solano López conseguiu se exilar na Europa (chegando a morar no Brasil anos mais tarde), Oesterheld permanece como um dos 30 mil nomes que a Argentina jura não esquecer. Recordar sua obra e seu destino, 50 anos após o golpe, é um lembrete de que a arte e a vida foram brutalmente silenciadas pela intolerância estatal.



