A crise econômica argentina segue aprofundando a saída de grandes multinacionais do país. Desde o início de 2020, pelo menos 16 companhias globais anunciaram desinvestimentos ou encerramento de atividades, sinalizando um cenário cada vez mais hostil para negócios internacionais.
Burger King e Carrefour preparam retirada do mercado argentino
O caso mais recente é o do Burger King, que colocou à venda suas 118 lojas na Argentina, onde atua desde 1990. A negociação está sendo conduzida pelo Banco BBVA e faz parte da estratégia de saída da controladora mexicana Alsea, que também opera as marcas Domino’s Pizza, Chili’s, Italianni’s, The Cheesecake Factory e Starbucks.

Desde a pandemia, a Alsea vinha reestruturando seus negócios e fechando unidades deficitárias. Em 2020, a empresa encerrou 13 lojas na Grande Buenos Aires — cinco do Burger King e oito da Starbucks — e transferiu sua base administrativa para Santiago, no Chile, centralizando a gestão regional.
Segundo analistas, a combinação de inflação descontrolada, restrições cambiais e queda no consumo interno tornou inviável a manutenção da operação no país.
Outra gigante que sinalizou a saída é o Carrefour. A rede francesa, que possui mais de 700 unidades entre supermercados e hipermercados na Argentina, estuda vender seus ativos locais por cerca de US$ 1 bilhão. Três grupos interessados, entre eles Coto e Cencosud, já analisam a compra.
Nike, HSBC e Exxon já deixaram o país

Enquanto Burger King e Carrefour avaliam o momento de sair, outras gigantes já fizeram as malas. A Nike vendeu suas operações de distribuição para o grupo mexicano Axo em 2020, mantendo apenas a propriedade intelectual.
O HSBC, a petroleira ExxonMobil e a americana Procter & Gamble também deixaram o país. Esta última vendeu marcas tradicionais como Gillette, Pantene e Pampers à argentina Newsan, que assumiu a produção e a venda dos produtos.
A Mercedes-Benz encerrou um ciclo histórico ao vender sua fábrica em Virrey del Pino, região metropolitana de Buenos Aires. A planta, inaugurada em 1951, foi a primeira unidade da montadora fora da Alemanha. Desde fevereiro, a operação está sob controle da concessionária Prestige Auto Open Cars, que manteve cerca de 1.700 empregos.
Telefónica e Petrobras também recuam
Em março de 2025, a espanhola Telefónica confirmou a venda de suas operações à Telecom Argentina por US$ 1,24 bilhão, consolidando sua estratégia de retração na América Latina.
A Petrobras também reduziu drasticamente sua presença no país, após anos de prejuízos e instabilidade regulatória.
Raízen tenta vender ativos da Shell na Argentina
A brasileira Raízen, licenciada da marca Shell, colocou à venda 700 postos de combustíveis e a refinaria Dock Sud, avaliados em US$ 1,5 bilhão. A empresa busca repassar seus ativos antes de uma nova desvalorização cambial.
Empresas que já deixaram ou anunciaram saída da Argentina
- Burger King (anunciou saída)
- Carrefour (anunciou saída)
- Raízen (em processo de venda)
- Walmart
- Telefónica
- Mercedes-Benz
- ExxonMobil
- Procter & Gamble
- Zara
- HSBC
- Petrobras
Efeito Milei: otimismo liberal, mas economia ainda instável

As promessas de abertura econômica feitas pelo presidente Javier Milei não foram suficientes para conter o êxodo de multinacionais. Apesar das medidas de desregulamentação e corte de gastos públicos, a inflação acima de 180% ao ano e a falta de previsibilidade cambial seguem afastando investidores estrangeiros.
Na região trinacional, o impacto é visível — mas de forma oposta ao que se via nos últimos anos. Desde o início de 2025, argentinos têm cruzado em massa as pontes para o Brasil e o Paraguai, em busca de produtos mais baratos e maior variedade. A valorização do peso argentino em determinados períodos do ano, aliada à desaceleração da inflação, ampliou o poder de compra dos vizinhos no exterior.
O cenário atual inverteu a lógica histórica do comércio de fronteira. Antes, brasileiros e paraguaios atravessavam para Puerto Iguazú em busca de vinhos, azeites e produtos de melhor qualidade a preços menores. Agora, o movimento se dá no sentido contrário: argentinos lotam os shoppings de Ciudad del Este e as lojas de Foz do Iguaçu, aproveitando a diferença de preços.
Embora a inflação argentina tenha perdido força em relação a 2024, os preços internos continuam altos, tornando o Brasil e o Paraguai destinos de compras mais atrativos. Para empresários locais, esse fluxo reforça o comércio e ameniza os impactos da crise no país vizinho.
A saída — ou o simples anúncio de saída — de multinacionais da Argentina simboliza mais que uma crise econômica: representa a perda de confiança de empresas que ajudaram a moldar o consumo no país.
Enquanto o governo Milei tenta equilibrar o discurso liberal com a realidade inflacionária, os vizinhos de fronteira observam com cautela. O futuro econômico argentino, por ora, segue em compasso de espera — e a paciência do mercado parece estar se esgotando.



