Muito antes dos primeiros europeus avistarem as quedas do Rio Iguaçu, esta região já era um território vibrante, habitado por povos que viam na natureza a morada do sagrado. Foz do Iguaçu e a região trinacional guardam em suas raízes a presença dos Guarani (especialmente o subgrupo Ava-Guarani) e dos Kaingang, etnias que até hoje lutam pela preservação de suas línguas e costumes.
O Amor que moldou o abismo: A Lenda das Cataratas
A espiritualidade indígena está impregnada na paisagem de Foz do Iguaçu. A “Lenda das Cataratas”, um dos relatos mais contados aos visitantes do Parque Nacional do Iguaçu, é um testemunho da tradição Kaingang.
A história narra o amor proibido entre a bela Naipi, filha do cacique Igobi, e o jovem guerreiro Tarobá. Naipi estava destinada a ser sacrificada em honra a Mboi, um deus em forma de serpente. No dia da cerimônia, os jovens fugiram em uma canoa pelo Rio Iguaçu. Furioso, Mboi retorceu seu corpo sob o leito do rio, criando uma fenda gigantesca: as Cataratas.

Diz a lenda que Naipi foi transformada em uma rocha central das quedas, eternamente fustigada pelas águas, enquanto Tarobá virou uma palmeira à beira do abismo, curvado sobre o rio. Mboi permanece vigilante em uma gruta, observando o casal que, embora separado, permanece unido na paisagem.
Arte Urbana: Onde encontrar a Lenda das Cataratas em Foz
Dois murais monumentais no Centro da cidade mantêm viva a história de Naipi e Tarobá; conheça as obras e seus artistas
A história de amor que explica o surgimento das nossas quedas não vive apenas no imaginário popular; ela está gravada no concreto de nossas praças. Se você caminha pelo Centro de Foz, existem dois pontos obrigatórios para apreciar essa narrativa sob o olhar de grandes artistas.
A Renovada Praça Naipi

Localizada em uma área nobre por onde circulam milhares de turistas mensalmente, a Praça Naipi foi inaugurada em 13 de junho de 1998, durante a gestão do prefeito Harry Daijó, como parte das celebrações dos 84 anos de Foz do Iguaçu.

Originalmente, o local abrigava uma fonte iluminada e um mural etrusco de 55 metros quadrados, obra do artista Claudius Mattos. Com o passar do tempo, a ação do clima e o mau uso levaram ao aterramento da fonte e à degradação do mural original. No entanto, em 2025, a praça passou por uma revitalização completa. Como o mural antigo era impossível de restaurar, o artista Pas Schaefer foi convidado para criar uma nova interpretação da lenda, devolvendo cor e cultura ao espaço.
O Monumento Neoguarani na Praça da Paz

Mais adiante, na Praça da Paz, encontra-se uma das obras mais imponentes da região: o mural “A Lenda das Cataratas”. Inaugurado no final de 2018, o painel possui impressionantes 170 metros quadrados e foi moldado pelas mãos do artista Miguel Héctor Hachen.

Hachen utilizou seu estilo próprio, o Neoguarani, para criar uma alegoria fantástica que une a história de Naipi e Tarobá ao deus-serpente M’Boi. A obra é um mosaico cultural que envolve os personagens principais em uma explosão de cores representando a fauna e a flora regional, sendo hoje um dos principais cartões-postais artísticos do centro da cidade.
Palavras que habitam o nosso dia a dia
A presença dos povos originários não está apenas nas lendas, mas na própria língua que falamos. O Tupi antigo e o Guarani batizam nossas cidades e instituições. Você sabia o que significam estes nomes?
| Nome | Origem provável | Significado |
| Iguassu (Iguaçu) | Tupi-Guarani | Y (água) + Guaçu (grande). “Água Grande”. |
| Paraná | Tupi | Pará (mar) + Anã (semelhante). “Semelhante ao mar”. |
| Itaipu | Tupi-Guarani | Ita (pedra) + Ipu (que canta/soa). “A pedra que canta”. |
| Itau | Tupi | Ita (pedra) + U (preta). “Pedra preta”. |
| Butantã | Tupi | Ibi (terra) + Atantã (muito dura). “Terra dura”. |
Tamandaré: O Patrono da Marinha e a conexão Tupi

Outra praça de Foz com forte influência dos povos indígenas em seu nome é a Almirante Tamandaré, também conhecida como Praça da Marinha. Localizada em frente à Capitania dos Portos do Rio Paraná, a praça homenageia Joaquim Marques Lisboa, o Marquês de Tamandaré (1807–1897), militar e Patrono da Marinha do Brasil.

O que muita gente não sabe é que Tamandaré é uma palavra de origem Tupi. As interpretações para o nome variam entre “tamanduá diferente” (tamandûaré) e “o repovoador” (tab-moi-inda-ré). Esta última versão está ligada à mitologia de um ancestral tupi que teria sobrevivido a um grande dilúvio ao abrigar-se no topo de uma palmeira, sendo o responsável por repovoar a terra — uma figura de recomeço que ecoa a importância da preservação das histórias originais deste solo.
Mais nomes de origem indígena no nosso cotidiano
| Nome | Origem provável | Significado |
| M’Boicy | Guarani | Mboi (cobra) + Sy (mãe). “Mãe das Cobras”. |
| Ybytu | Guarani | Ybytu (vento / ar em movimento). “Vento”. |
| Arara | Tupi | A’rara (aves de muitas cores). “Cores vivas”. |
| Capivara | Tupi | Kapi’wara (comedor de capim). “Senhor das ervas”. |
| Carioca | Tupi | Kara’i (homem branco) + Oka (casa). “Casa do homem branco”. |
| Pindaíba | Tupi | Pinda (anzol) + Iba (árvore). “Vara de pescar” (hoje usada para falta de dinheiro). |
| Anhanguera* | Tupi | Anhangüera (espírito antigo / diabo velho). “Diabo Velho”. |
| Ipanema | Tupi | Y (água) + Panema (imprestável / azarada). “Água ruim para pescar”. |
| Tijuca | Tupi | Ty (água) + Iuk (podre). “Água podre” ou “Brejo/Lamaçal”. |
| Pacaembu | Tupi | Paka (paca) + Hembu (atoleiro). “Atoleiro das pacas”. |
*Anhanguera foi o nome dado pelos indígenas a Bartolomeu Bueno da Silva (Diabo Velho), bandeirante paulista que liderou expedições violentas pelo interior do Brasil, fundando vilas e marcando a colonização da região central com a exploração de minas e escravização indígena.
Respeito e Visibilidade
Celebrar o Dia dos Povos Indígenas é reconhecer que a cultura Ava-Guarani e Kaingang, tão enraizada em nosso cotidiano, não pertence ao passado, mas ao agora. Sua presença, seu artesanato e sua visão de mundo são partes fundamentais do que chamamos de identidade brasileira. Ao visitar as Cataratas ou caminhar pelas ruas de Foz, lembre-se: este solo não nos pertence, nos foi emprestado por quem já estava aqui, desde que, literalmente, tudo isso “era mato”.
Fotos: Kaká Souza/Portal Clickfoz


