O dia 3 de fevereiro vai além das comemorações cívicas no Paraguai. A data marca o fim de uma das mais longas e duras ditaduras da América Latina. Na madrugada de 2 para 3 de fevereiro de 1989, Alfredo Stroessner foi deposto do poder após 34 anos, 5 meses e 19 dias à frente do Estado paraguaio.
Revisitar quem foi Stroessner, como chegou ao poder e de que forma seu regime se sustentou é um exercício de memória histórica. Também é um alerta. Entender o passado é uma das poucas formas eficazes de impedir que ele se repita.
Quem foi Alfredo Stroessner

Alfredo Stroessner Matiauda governou o Paraguai de 15 de agosto de 1954 a 3 de fevereiro de 1989. Conhecido por apelidos como El Rubio, Mburuvichá e El Segundo Reconstrutor, foi o chefe de Estado com o mandato mais longo da história da América Latina no pós-guerra.
Nascido em 3 de novembro de 1912, em Encarnación, Stroessner era filho de um imigrante alemão e de uma paraguaia. Ingressou cedo na carreira militar, participou da Guerra do Chaco e ascendeu rapidamente dentro das Forças Armadas, especialmente após a Guerra Civil de 1947, quando desempenhou papel estratégico ao lado do Partido Colorado.
A partir desse conflito, consolidou-se uma aliança política e militar que serviria de base para sua chegada ao poder.
O caminho até o poder absoluto
Ao longo do final da década de 1940 e início dos anos 1950, Stroessner soube explorar rivalidades internas no Partido Colorado, disputas nas Forças Armadas e tensões regionais em pleno contexto da Guerra Fria.
Em maio de 1954, uma sucessão de levantes militares levou à queda do então presidente Federico Chávez. Stroessner não assumiu imediatamente, optando por manter uma aparência de legalidade institucional. Pouco tempo depois, foi indicado candidato único do Partido Colorado e eleito presidente em julho daquele ano.
Ao tomar posse, manteve o cargo de comandante-chefe das Forças Armadas — um detalhe que não era protocolar, mas estrutural.
Os pilares do regime
A longevidade do stronismo se apoiou em uma aliança tripla: Forças Armadas, Partido Colorado e presidência da República, todos centralizados na figura de Stroessner.
Essa engrenagem funcionou de maneira coordenada por quase três décadas e meia.
O Partido Colorado como Partido do Estado
Sob Stroessner, o Partido Colorado deixou de ser apenas uma legenda política e se transformou numa máquina de controle social.
A filiação passou a ser obrigatória para servidores públicos, professores, médicos e até membros do Judiciário. O partido se infiltrou no cotidiano da população por meio do clientelismo, da vigilância local exercida pelos piragues e da troca sistemática de favores.
Ter a carteira do partido significava acesso ao Estado. Não tê-la, significava exclusão.
Forças Armadas politizadas
As Forças Armadas perderam seu caráter profissional e se tornaram um braço político do regime. Oficiais eram obrigados a se filiar ao Partido Colorado, cargos estratégicos do governo eram reservados a generais e benefícios econômicos garantiam lealdade.
O Estatuto Militar de 1980 institucionalizou essa função ao atribuir às Forças Armadas o papel de garantir a “segurança interna” do país — uma licença formal para a repressão.
Culto à personalidade
Mesmo sem carisma, Stroessner foi o centro de um culto político. Seu retrato era presença obrigatória em repartições públicas. Cidades, edifícios e eventos carregavam seu nome.
A propaganda apresentava o ditador como símbolo de “Paz e Progresso”, slogan repetido à exaustão para justificar a repressão e criminalizar qualquer forma de oposição.
Uma democracia de fachada

Diferentemente de outras ditaduras latino-americanas, o regime de Stroessner manteve eleições periódicas, Congresso e Judiciário — todos esvaziados de autonomia.
As eleições eram fraudulentas, a Constituição foi alterada para permitir reeleições sucessivas e o estado de sítio vigorou de forma quase permanente. A legalidade aparente servia como verniz institucional para violações sistemáticas de direitos humanos.
Repressão institucionalizada
A repressão não se escondia. Prisões arbitrárias, tortura e vigilância eram praticadas pelas próprias estruturas do Estado, como o Departamento de Investigações da Polícia da Capital e a Direção Nacional de Assuntos Técnicos.
A chamada “repressão preventiva” instaurou uma cultura profunda de medo, autocensura e desconfiança. O Arquivo do Terror, descoberto em 1992, revelou a extensão da vigilância, da tortura e da cooperação internacional na repressão, especialmente por meio da Operação Condor.
Segundo a Comissão da Verdade e Justiça, quase 20 mil prisões arbitrárias ocorreram durante o regime.
Corrupção como método de poder
A corrupção não era um desvio. Era política de Estado.
Militares e aliados políticos se beneficiavam de contrabando, tráfico, concessões de terra ilegais e superfaturamento de grandes obras. A Itaipu Binacional tornou-se símbolo desse sistema, com custos inflados e suspeitas de propinas milionárias.
A distribuição ilegal de terras públicas consolidou uma das maiores concentrações fundiárias da América Latina — problema que ainda marca o Paraguai rural.
Nacionalismo como narrativa
O regime apropriou-se da identidade nacional, da história e dos símbolos paraguaios para legitimar o autoritarismo. Stroessner foi retratado como herdeiro de figuras históricas e defensor da pátria contra inimigos internos e externos.
O anticomunismo e o medo do “estrangeiro” serviram como justificativa permanente para a repressão e o controle social.
O papel dos Estados Unidos
Os Estados Unidos foram aliados estratégicos do regime durante a Guerra Fria. Apoio político, militar e financeiro ajudou a sustentar a ditadura em troca da postura anticomunista de Stroessner.
Mesmo diante de denúncias de tortura, corrupção e narcotráfico, o apoio só começou a se desfazer na fase final do regime. Ironicamente, o mesmo general apoiado pelos EUA liderou o golpe que depôs Stroessner em 1989 — e foi rapidamente reconhecido como novo presidente.
Por que lembrar

O fim da ditadura não apagou suas marcas. Muitas estruturas, privilégios e narrativas sobreviveram à queda de Stroessner.
Lembrar o 3 de fevereiro é mais do que um exercício histórico. É um compromisso com a democracia. E um alerta permanente de que regimes autoritários não se instalam da noite para o dia — eles se constroem lentamente, muitas vezes sob o disfarce da ordem, da lei e da normalidade.
Créditos
Levantamento histórico baseado em pesquisas e publicações da imprensa paraguaia, incluindo ABC Color, Última Hora, La Nación, Hoy, além de documentos da Comisión de Verdad y Justicia (CVJ). Fotos: Arquivo/Portal Guarani, Arquivo Jornal O Estado de São Paulo e Jornal ABC Color.





